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sexta-feira, 22 de junho de 2012


A POESIA HUMILDE DE FÁBIO GOMES


         É sempre com muita alegria que encontro um poeta até então meu desconhecido, um daqueles criadores que colocou a sua vida ao serviço das palavras. Rejubilo quando descubro a autenticidade verbal e existencial de um Homem que, usando os recursos que tinha à sua disposição, tentou comunicar uma visão peculiar do Universo. Não me interessam as circunstâncias que rodearam o autor. Desejo apenas que os poemas sejam frutos saborosos e não imitações plásticas fabricadas por um versejador mais ou menos habilidoso; “versejadores há-os em qualquer parte: nos bancos das tabernas e nas academias, nas leivas de terra e nos jardins relvados, nos jogos florais e entre luxuosas encadernações...”, como escrevi num jornal em 2005.
         Dum verão vivido há uns anos, guardo a alegria de ter encontrado um poeta. Nunca conheceu em vida o contentamento de um livro publicado. Pertence ao grupo dos criadores de uma Poesia Humilde (próxima do húmus, da terra), a que João David Pinto-Correia chamou “tradicionalistas”, porque se socorrem dos instrumentos da tradição oral, comunicando através de uma linguagem simples, mas autêntica. Chamou-se (chama-se) Fábio Gomes e nasceu em Aljezur a 31 de Julho de 1911, tendo falecido em Lisboa no dia 5 de Junho de 1998. O volume que, postumamente, guarda a sua produção poética intitula-se Flores de Outono e foi editado, em boa hora, pela Junta de Freguesia da sua terra e lançado no passado mês de Agosto.
         É um autor modesto que nos escreve: “Não olhes para o poeta / Para saber se versa bem / Na cara dele não se vê / O valor que a rima tem // [...] // Às vezes escrevo com erros / Coisas que lembro da vida / Digo à pena os meus segredos / Escritos em letra tremida” (p. 180).
         Ligado à terra, exalta o valor de quem a torna fértil, comparando o seu trabalho com o de um verdadeiro Artista: “O artista cavador / Com as cores da natureza / Pinta quadros de valor / Com realismo e beleza // [...] // Lindos pomares em flor / Os trigais da cor do mel / As tintas foram suor / A enxada o seu pincel // Com a enxada na mão / Dando vida à sua tela / Tirando da terra o pão / Faz a sua obra mais bela” (p. 59).
         Fábio Gomes exprime com encantamento, com humor ou com mágoa, mas sempre com frontalidade, a sua visão do mundo, seja natural ou humano. Satiriza o “Carnaval” político, através de uma fábula em que um “chibato orgulhoso / Com a sua pêra imponente, / Pendura os óculos nos chifres / Foi eleito presidente!” (pp. 120 a 125). Manifesta desilusão, quando recorda os desmandos do pós-25 de Abril: “Estalou a revolução / Por todos tão desejada. / Eu sofri uma decepção / Vi a minha terra ocupada. // Agora com a ocupação / Sou um zero, não à direita, / Já não faço a sementeira / Nem sei nada da colheita.” (pp. 194/195). Nascido numa terra de gentes ligadas ao mar, personifica-o, para revelar os muitos dramas que guarda: “Numa noite tão serena / Chorava de dor o mar / Será que ele tinha pena / De tanta gente matar?...” (p. 88).
         Muitos dos poemas são autobiográficos, como costuma suceder com boa parte da poesia lírica, apesar das máscaras do fingimento. Sentimentos, emoções e memórias ascendem à superfície do texto, de forma aberta ou velada. Adaptando um velho provérbio à sua experiência, Fábio Gomes afirma: “Há os que vivem chorando / Levando a vida a cantar / Eu levo a vida cantando / Com o coração a chorar” (p. 200). Mostra-se então uma dor de existir que se reflecte na escrita (“O que tem a minha pena / Que de pena anda perdida / Será porque a minha pena / Tem pena da minha vida?” (p. 15)), vinda da consciência de um tempo que passa e não regressa: “O tempo passou por mim / Sempre a correr sem parar / E eu à espera do tempo / Não vi o tempo passar.” (p. 104).
         “Dizem que perto da morte / É só quando o Cisne canta. / Serei eu também assim / Que só agora no fim / Abri a minha garganta!? // [...] // Se estivesse em minha mão, / Como Cisne eu queria ser. / Mostrar a minha alegria / Cantando uma melodia / E depois de cantar, morrer.” (p. 26). A poesia, nascida no entardecer da vida, é para Fábio Gomes um canto de cisne – um canto de cisne que merece ser conhecido por quantos apreciam uma poesia humilde e, logo, autêntica.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

MEMÓRIAS DE UM POETA COMOVIDO

         Artur Domingos Garcia era um poeta humilde. Humilde porque durante a sua existência esteve sempre próximo do húmus, da terra. Humilde porque escreveu sem quaisquer pretensões (ao contrários de muitos que, hoje, primeiro querem publicar e só depois criar romance ou poesia). Desejou apenas deixar aos seus descendentes o registo simples de alguns factos da sua vida, das existências que presenciou, da sua maneira de olhar o mundo.
         Foi através de uma sua bisneta que tomei contacto com o caderninho onde registou os seus textos. Alexandra Costa, então minha aluna na Escola Superior de Educação de Portalegre na cadeira de Literatura Oral e Tradicional, que eu então leccionava, trouxe um dia para uma das sessões o pequeno volume onde Artur Domingos Garcia registou ao longo dos anos o que ia escrevendo. Constituído por vinte e oito folhas azuis pautadas, intitulou-o (corrijo a ortografia) Dicionário de uma Família Pobre de Pai Para Filhos.
         O autor, nascido a 27 de Fevereiro de 1901 em Gáfete (no concelho do Crato), passou grande parte da sua vida em Benavila (Avis), localidade onde veio a falecer no dia 22 de Julho de 1992.  Sabia escrever, mas com muitas dificuldades, compreensíveis, tratando-se de um trabalhador rural. Não obstante, devemos integrá-lo no domínio da Poesia Oral ou Tradicionalista (a que alguns erradamente chamam “popular”).
         Emprestado o caderninho, fotocopiei-o com autorização da família. Li-o, depois, com alguma emoção – sentimento que não pude evitar perante a conservação de memórias e de visões do mundo, levada a cabo por um homem simples que tão pouco desejou para si.
         Artur Domingos Garcia auto-intitula-se “poeta comovido” num dos seus textos.  Comovido guardo eu agora esta verdadeira relíquia – que aqui trago ao conhecimento dos leitores/ouvintes.
         As primeiras páginas do manuscrito são em prosa. Relatam alguns episódios da vida pessoal e conjugal do poeta e, ainda, acontecimentos memoráveis da época em que viveu, como o ciclone de 15 de Fevereiro de 1941. Dirigindo-se à filha, sua destinatária, escreve: “Este ano [...] foi um ano terrível para os que se encontravam vivos; não nos bastava uma Guerra Europeia prestes a ser mundial se não agora mais uma guerra natural”. O último registo foi escrito em 25/11/1982, data em que chora a morte de sua mulher.
         A parte poética apresenta temas variados. Desde os “Frutos dos 25 de Abril”, a  relatos de mortes e suicídios, passando por factos da história de Benavila, pela enumeração dos heróis e anti-heróis de Portugal, por críticas aos que instrumentalizam a figura de Cristo, etc.. – tudo vertido em modelos de versificação tradicionais. De entre os poemas deste autor que se apresenta sempre como um democrata (situação perigosa numa época em que estes eram perseguidos), revestem especial interesse as suas reflexões sobre a II Guerra Mundial, que apresentou em duas composições (“artes de poesia”, como lhes chamava). Os seus ideais de igualdade social e de fraternidade universal estão bem patentes neste conjunto de sextilhas (sem dúvida acutilantes e até polémicas) escritas em Abril de 1943:

         Com repúblicas e monarquias,
         Assim vamos passando os dias,
         Vivendo assim iludidos.
         Em guerra vamos passando,
         Por baixo do fogo chorando,
         Uns já mortos, outros feridos.

         Essas grandes democracias
         Combatem todos os dias
         Contra esses ditadores,
         Porque na verdade porém
         Deles só guerra nos vem,
         Fome, lágrimas e dores.

         Ó representantes do mundo
         Sabeis que o mar no seu fundo
         Pode com toda a riqueza.
         Pela guerra é tudo devorado,
         Tanto civil como soldado,
         Morre tudo, é uma tristeza.

         […]

         Mal empregada Ciência
         A custo e com paciência
         Que hoje se está cultivando.
         Só se emprega em maquinismo
         Pra nos trazer o terrorismo
         Para os inocentes ir matando.

         Essas grandes construções
         Tanto em barcos como aviões,
         Não tem fim o seu limite.
         Afinal o que é que fazem [?]
         A morte à gente nos trazem,
         Construção de dinamite.

         Maldita guerra afinal,
         Que se torna universal.
         Achando pouco a Europa,
         Por toda a parte se grita,
         Só se vê gente aflita,
         Tanto civis como tropa.

         Nas aldeias devastadas
         Vêem-se mães, coitadas,
         Com os filhinhos a fugir.
         Atrás delas o vil algoz,
         Com instintos de faraós,
         Só para matar e ferir.

         […]

         Acabai com o armamento
         Todas as nações ao mesmo tempo,
         Sejam iguais as bandeiras.
         Tenhamos uma amizade,
         Com toda [a] solidariedade
         Com os irmãos de Além Fronteiras.

         Esse grupo de vilões,
         Ministros e patrões,
         Esses que nada produzem.
         Com a sua instituição,
         Sem alma nem coração,
         À miséria nos conduzem.

         A revolução social
         Há-de ser universal,
         Está próximo esse dia.
         Traz consigo a igualdade
         Com toda a capacidade
         P’r’ acabar com a burguesia.