quinta-feira, 24 de abril de 2014




A ESCADA DA DEMOCRACIA

por Ruy Ventura

                Sou de uma aldeia situada a sete quilómetros de Castelo de Vide, vila onde nasceu e está sepultado o capitão Fernando Salgueiro Maia. Exerço o ministério docente numa escola do concelho de Setúbal onde, pela última vez, deu aulas o poeta e cantor José Afonso. Esta proximidade física poderia ter nulo significado no meu olhar sobre o nosso país e a sua forma de governo. Acontece, contudo, que tenho entre os meus familiares próximos alguém que participou activamente nas operações militares que levaram à queda da ditadura de Thomaz e Caetano. Sucede que sou descendente de um ex-militante de um dos partidos que fundou a democracia portuguesa, homem que prontamente abandonou a sua filiação quando se deu conta de que essa organização política, cujos estatutos visam a construção do bem comum, era sobretudo um instrumento de promoção pessoal, de tráfico de influências e, talvez, de corrupção. Estes exemplos poderiam não ter exercido qualquer influência sobre o meu pensamento. Dá-se todavia o caso de eu ser, desde a adolescência, um leitor assíduo daquele texto basilar onde se afirma que o salário dos trabalhadores clama quando não é pago com justiça, sobretudo quando aqueles que o deveriam entregar vivem “na terra, entregues ao luxo e aos prazeres, cevando assim os [seus] apetites”. A estas palavras daquele Sant’ Iago, cognominado “o justo”, habituei-me ao longo dos anos a juntar a mensagem de Jesus Cristo, sobretudo quando nos aconselha a sermos simples como as pombas e astutos como as serpentes. Ressoam ainda hoje as suas bem-aventuranças: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados… Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. Ressoam ainda as suas imprecações: “[…] ai de vós, ricos, porque recebestes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome!”.
            Não me comoveria hoje tanto, quando recordo e evoco os heróis cívicos que Portugal e os lusitanos talvez ainda não tenham merecido (Maia, Zeca e tantos outros…), se não tivesse nos meus alicerces esta tradição multissecular. Talvez não me angustiasse do mesmo modo, quando vejo a existência dos portugueses retroceder até padrões civilizacionais indignos, se a mensagem do cristianismo (e também de muito do judaísmo) não ecoasse tanto em mim e, desse modo, não soubesse que o mundo está a ser governado pelos servos de Mamon, cujo objectivo, lentamente conseguido, é transformar as imperfeitas democracias (não há democracias perfeitas, porque são humanas) em descaradas, embora hipócritas, plutocracias, reduzindo-nos à servidão. É que não se pode adorar ao mesmo tempo a Deus e ao dinheiro…          
            Todos temos o dever de pôr em prática um exame de consciência. Que queremos de nós, da sociedade, do mundo? Que fazemos/faremos para alcançar essa meta? Quanto temos praticado em sentido contrário? Tinha quatro meses quando ocorreu a revolução de 25 de Abril de 1974. E embora, um ano ou dois mais tarde, gritasse que o povo estava com o MFA, só a leitura e a meditação de toda a tradição humanista e judaico-cristã me levou a ter consciência de quanto são inseparáveis a democracia e uma verdadeira dignidade humana, de quanto são faces da mesma moeda a liberdade e a responsabilidade, de que “tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém”, como escreveu São Paulo. Desejo, assim, a democracia – e não a demagogia ou a libertinagem – porque sei que não podemos ser livres sem beleza, bondade e verdade, que não pode haver igualdade sem uma justa redistribuição e um correcto usufruto dos bens materiais e imateriais, que não existe fraternidade sem referência a uma paternidade e maternidade comuns, como bem viu recentemente o papa Francisco. Estes são valores judaico-cristãos, que Saint-Martin e a revolução francesa apenas revisitaram e actualizaram. Penso que só os concretizaremos quando realmente se praticar a proposta de Leão XIII na sua encíclica “Rerum Novarum”: “[…] não é justo que o indivíduo ou a família sejam absorvidos pelo Estado, mas é justo, pelo contrário, que aquele e esta tenham a faculdade de proceder com liberdade, contanto que não atentem contra o bem geral e não prejudiquem ninguém”. Embora confiantes e esperançados na força do ser humano quando se liberta de quanto o prende e estupidifica, temos de estar muito preocupados, pois vivemos um tempo em que nem os governados são para o governo nem o governo para os governados; todos são instrumentos nas mãos do poder ilegítimo financeiro, sem rosto, que mata sem hesitar, que reduz milhões à miséria social, moral e espiritual. Assim se justifica a promoção da penúria material, a estimulação do consumismo acéfalo e desenfreado, a alienação dos cidadãos pela valoração de um relativismo ético e de uma ignorância sobranceira que incitam a preguiça boçal, a agressão descarada e a barbárie mais assustadora.
            Tudo isto se passa em Portugal e também noutros países. Mas neste rectângulo em que nos foi dado viver temos ainda um sistema político-social que se desfaz, porque nele abundam seres que não promovem o bem comum porque não podem, não querem ou não sabem fazê-lo. Há sinais de esperança, é certo. Há sempre sinais de esperança… Felizmente há portugueses, crentes e não-crentes, que discretamente dão resposta à exortação publicada em 1963 por santo Ângelo José Roncalli. O bom papa João XXIII, na encíclica “Pacem in Terris”, incitou “todas as pessoas de boa vontade”, principalmente os católicos, a “participarem activamente na vida pública” e “contribuírem para a obtenção do bem comum de todo o género humano e da própria comunidade política; e [a] se esforçarem […] para que as instituições de finalidade económica, social, cultural e política sejam tais que não criem obstáculos, mas antes facilitem às pessoas o próprio melhoramento, tanto na vida natural como na sobrenatural”.          Que melhor desejo posso ter para as próximas décadas de democracia em Portugal? As palavras desde grande santo espicaçam-nos. Espicaça-nos também outro grande cristão, o enorme escritor Raul Brandão (e com ele termino): “Espero pelo dia […] em que acabe a exploração do homem pelo homem. Espero pelo dia em que a instrução seja realmente gratuita e obrigatória para todos – e o ensino religioso. […] Espero o dia em que o homem compreenda que o supérfluo é um crime. Mais justiça e mais pão para todos. Mais Deus para todos.” Deverá ser esta a nossa meta, em todos os dias do nosso futuro. Só assim valerá a pena sermos cidadãos nesta sociedade, nesta pátria, neste mundo.